Eu também quero sonhar com lírios! — Primeiro passo
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Primeiro passo

Por MooLucio 8 min 18 Mar, 2026

Após resolver todas as pendências na vida e pegar o carro de serviço, Yuri dirige de volta para o resort. Depois de estacionar, Yuri vai até a recepção para pegar a chave da dispensa do restaurante antes de seguir até lá, mas antes de entrar, ele vê Digão e Felipe conversando, sentados à sombra das árvores que cobrem as mesas de piquenique. Sem nenhum cliente na recepção, ele caminha até eles.

— Cês tão de férias também? — Yuri brinca, se juntando à conversa.

— Ó aí, Felipe. O patrão chegou, viu. Acabou a paz! — Digão rebate, rindo.

— Já deu uma acalmada na correria? — Yuri pergunta, se sentando no banco ao lado deles.

— Ainda bem. Mas provavelmente vai ter um pico de novo depois do Natal. — Rafael responde, e continua. — E lá na cidade? Muito movimento?

— Pra caramba. Acho que é por isso que o resort ta tão vazio agora à tarde. — Yuri especula, olhando a calmaria ao redor. — Quem não tá na praia tá la no centro da cidade fazendo compras pra amanhã.

— Vixe. Amanhã já é véspera de Natal, é? — Digão estala os dedos ao se lembrar.

— Sim. Já tô pensando na ceia há mais de uma semana. — Felipe comenta.

Digão pega o seu celular e começa a deslizar a tela, verificando algo.

— Aliás, já que você tá sozinho, bora passar o Natal lá na casa dos meus pais? — Felipe o convida em um tom genuíno.

— Valeu, mas amanhã vou lá na praça assistir à peça de teatro, e depois, acho que volto direto pra casa mesmo. — Yuri explica, agradecendo o convite.

— Verdade, aquela sua amiga vai se apresentar lá, né! Emili? — Felipe questiona.

Yuri confirma com um aceno e Felipe retribui com um toque amigável em seu ombro enquanto se levanta.

— Bom, se mudar de ideia, o convite segue valendo, hein?! — Felipe reafirma, e então, começa a caminhar em direção à recepção. — Diz pra sua amiga que desejei boa sorte na peça.

Com mais um aceno, Yuri agradece novamente o convite, mas antes de Felipe se afastar muito, Yuri se lembra do porquê de ter parado na recepção.

— Ah, peraí. Você ta com a chave da dispensa lá do restaurante? — Yuri questiona — Tenho que levar umas compras pra lá.

— Hum? Fica aqui na recepção, no meu lugar, então. — Felipe propõe. — Eu preciso ir com o carro trocar as lixeiras dos bangalôs. Posso deixar as compras na despensa antes.

— Tem certeza? — Yuri questiona, não querendo dar mais trabalho a Felipe.

— Tranquilo. — Felipe confirma, estendendo a mão pra receber a chave do carro.

Yuri lança as chaves para Felipe, que segue pelo corredor em direção ao estacionamento.

Como não tinha nada pra ser feito na recepção, Yuri se senta com Digão, que continua focado em seu celular.

— Ué, Digão. O que você tanto procura aí nesse celular? — Yuri interroga Digão, curioso com o foco repentino.

— Tsc... Eu tinha esquecido que era véspera de Natal amanhã, véi. — Digão responde, ainda focado no celular.

— Esse aí só não esquece a cabeça porque tá grudada no pescoço. — Uma voz vem de trás de Yuri, do mesmo corredor onde Felipe acabou de sair.

Yuri se vira e vê uma mulher com cabelos castanhos trançados sobre os ombros. Ela veste um longo vestido preto, estampado com grandes flores vermelhas, curto o suficiente para deixar à mostra seus coturnos pretos. Os braços, cobertos de tatuagens, e os dedos, repletos de anéis, seguram um celular em uma das mãos.

— Val! Oi! — Yuri se levanta para a receber.

É Valéria, prima de Yuri, que ele considera quase uma irmã mais velha. Ela sorri, e o abraça firme e com afeto.

— Há quanto tempo, hein? — Ela diz, arrumando o cabelo após o abraço.

— Pois é. Como você tá? E a Tia, ta bem? — Yuri pergunta, com um sorriso.

— Ta bem, graças a Deus. Ela mandou um beijo e disse pra você ir lá em casa ver ela.

— Oi. — Digão diz com um sorriso sem graça.

— Ai, Rodrigo. Não me dirija a palavra, não, faz favor. — Valeria sinaliza com a mão sem nem olhar pra Digão.

— Eu tava ocupado, nega, mas ainda lembrei a tempo. — Ele se defende.

Valeria apontou para o próprio celular — Lembrou nada. Te lembraram! — Ela o corrigiu.

— É... Desculpa. — Ele diz com uma cara ainda mais sem graça, sem argumentos pra rebater.

— Humf... — Valeria só resmunga e volta o olhar pra Yuri. — A Ana ta por aqui?

— Ela deve estar lá no spa. Precisa falar com ela? — Yuri questiona, já tirando seu celular do bolso para ligar.

— Sim, mas não precisa ligar. Eu vou lá. Ela já sabia que eu vinha.

Valeria confere a hora em seu próprio celular antes de colocá-lo de volta no bolso do vestido.

— Vai lá em casa depois. — Ela dá um beijo no rosto de Yuri, se despedindo. — E você... —Ela aponta para Digão. — Faz favor de não esquecer de novo!

— Sim, senhora. — Digão acena com a cabeça, ainda sem graça, enquanto ela se afasta em direção ao spa.

Quando ela se afasta um pouco mais, Yuri olha para Digão, que começa a rir da própria situação.

— Caraca, o que vocês ainda continuam se estranhando? — Yuri começa a ri, se unindo a ele.

— É que ela tinha me pedido pra confirmar até domingo se ia pra missa com ela antes da ceia na casa de minha vó... Mas eu só me liguei agora quando você e Felipe falaram.

— Só isso? E ela já te escorraçou desse jeito? — Yuri pergunta, surpreso.

— É barril, pivete. Acho que toda mulher fica assim quando o cabra é lerdo, né? — Digão brinca, farpando a sí mesmo.

— Sei lá, hein? Vai ter que perguntar pra algum outro lerdo. — Yuri pirraça Digão, reforçando a farpada.

— Teu cu! — Digão gargalha. — Eu lembro muito bem de a Val te tratar desse jeitinho também quando você era pivete.

— É diferente. Não era por ser uma mulher falando com um cara lerdo. Era uma babá falando com uma criança chata. — Yuri se defende.

— Oxe, nada a ver. E a Ana? Vai falar que ela nunca te deu uma comida de rabo também? — Digão insiste.

— Já, mas também não conta. Diferente da Val e de você, a Ana não é minha namorada, né?

— Skill issue seu, otário. — Digão se levanta do banco rindo com Yuri. — Mais prova de que você é um bicho lerdo da desgraça.

Digão estende a mão pra um aperto de mão firme, se despedindo.

— Deixa eu ir puxando o carro que eu ainda tenho dois alunos no surfe hoje.

— Vai lá. E se a gente não se ver lá na praça amanhã, feliz Natal! — Yuri se despede, se levantando também.

— Porra, pode crer, pivete. Feliz Natal! — Digão volta e dá um abraço rápido em Yuri. — Eu já ia esquecendo de novo! — Ele diz gargalhando.

Depois disso, Digão seguiu para suas aulas de surfe, deixando Yuri na recepção.

O restante do dia de Yuri se arrastou devagar. Com o único movimento sendo alguns hóspedes que passavam pela recepção, voltando da cidade ou indo para lá. E o dia seguinte foi ainda mais monótono.

Hoje—Véspera de Natal—Yuri passou a tarde toda sem nada pra fazer, e sem nenhum compromisso do resort ou check-in agendado, ele encerrou o expediente na recepção mais cedo e foi para casa se arrumar.

Diferente dele, Emili com certeza teve um dia corrido. Tanto que não mandou nenhuma mensagem nesse dia.


"Emili: A peça começa às 19h30 amanhã. Não esquece. – 22:07.

Foi a última mensagem que ela havia mandado para Yuri na noite anterior, enquanto saía com o pessoal do elenco, depois do ensaio.

Yuri confere a hora no celular enquanto relê a mensagem de Emili. Ainda tem tempo de sobra.

Ele joga o celular na cama. Em seguida, a camiseta, o short e a cueca também vão para o chão.

No box, sob o chuveiro, a água gelada faz o calor do dia escorrer pelo ralo junto com o suor.

Lá fora, o silêncio da tarde é quase palpável. Só o vento mexendo nas folhas das árvores e o barulho constante da água batendo no azulejo.

A calmaria invade o banheiro e o banho se torna mais longo.

Yuri fecha os olhos e relaxa. Pela primeira vez em algum tempo, a cabeça fica livre o suficiente para pensar de verdade.

— A peça de hoje é importante pra Emili. — Ele sussurra para si mesmo.

De certa forma, a noite de hoje resume tudo o que Emili vem falando há três anos: o sonho de atuar, de estar no palco de verdade.

Claro que é importante. Mas até que ponto? Não é a realização completa do sonho — afinal, é só a primeira grande peça.

Então... o que conta como sonho realizado?

Quando o nome aparecer nos créditos de um filme? Quando encher a plateia Ganhar um prêmio? Ou simplesmente acordar todo dia feliz, satisfeito com o que está fazendo?

Ainda de olhos fechados, ele imagina Ana. Cercada de prateleiras cheias de flores de todas as cores, usando um uniforme laranja-claro, atendendo clientes na floricultura dela.

"Será que isso seria o sonho dela realizado?" — pensa consigo mesmo.

A imaginação muda. Agora é Emili, em um palco, caracterizada, interpretando um papel importante num teatro chique.

"E o dela?"

Ele fica ali, pensando mais um pouco sobre quando, de fato, um sonho se realiza.

Aos poucos, a dúvida muda de forma. De "quando um sonho se realiza?" para "Quantos passos ainda faltavam pra eu alcançar algum daqueles sonhos?" E "Quanto falta pros sonhos delas se realizarem?".

E, de repente, esse pensamento vira uma conclusão.

Yuri abre os olhos de supetão e sai do box, deixando o chuveiro ligado. Ainda pingando, ele atravessa o quarto, esfregando o cabelo e o corpo com a toalha.

Sem nem se vestir, ele caminha rápido até a mesa, abre o caderno e pega uma caneta. Começa a rabiscar algo.

— Emili, Ana, Val, Digão, Felipe... — murmura, terminando de escrever. — Eles com certeza também têm os sonhos deles.

No topo da folha, em letras maiores, como título:

"Novos sonhos"

Yuri sorri enquanto olha para a lista que acabou de começar.

— Eu ainda não sei exatamente onde isso vai dar, mas com certeza...

Abaixo do título, em letras um pouco menores:

"1. Ajudar a alcançar os seus sonhos.

Ele solta um suspiro satisfeito.

— Esse é um bom primeiro passo.


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