O sol já estava alto refletindo sobre a água, onde pequenas canoas já balançavam amarradas a um píer de madeira.
Um cara alto e bronzeado, cheio de tatuagens e com o cabelo bagunçado acenava, chamando a atenção dos alunos do dia.
Era Rodrigo, mas todos alí só o chamavam de Digão.
Enquanto o Felipe era o braço direito dos pais do Yuri, na ausência deles, ele era o braço direito do Digão, que era mais velho que os dois e já trabalhava no resort a muito mais tempo.
— Bom dia, pessoal!
Ele olhou ao redor. Seis hóspedes já estavam reunidos, todos com coletes salva-vidas e ansiosos pela aula.
— Certo. Quem fez as aulas ontem comigo, já podem escolher suas canoas e seguirem, com cuidado, hein?
Três dos seis hóspedes assentiram, já se dirigindo para as canoas mais próximas.
— E para vocês, que estão começando hoje...
Digão gesticulou para os três novatos, depois acenou para dois jovens que esperavam ao lado.
— Vamos ter aulas acompanhadas, um instrutor por canoa, pra vocês pegarem o jeito primeiro.
Ao lado de Digão, Yuri sorria e acenava para os recém-chegados. Com uma camisa azul-claro dele criava um forte contraste com o colete salva-vidas laranja. Mesmo que ele ajudasse em todos os setores do resort, participar das atividades era, com certeza, uma de suas preferidas.
— Pra começar: temos o Yuri... — Digão apresentou, gesticulando para ele.
Yuri sorriu e levantou a mão.
— E esse aqui é o Rafael — Digão continuou. Rafael, um garoto magro de cabelos loiros, acenou de forma tímida, mas amigável.
— E, por último, o melhor instrutor... Eu! — Digão disse com um sorriso enquanto apontou pra si mesmo.
O grupo riu.
— Agora, vocês preferem escolher os instrutores, ou tanto faz pra vocês? — Digão perguntou aos três novos alunos.
Os hóspedes trocam olhares, educadamente se perguntando sobre suas preferências. O casal afirma não se importar, e assim Emili opta por ir com Yuri, e o casal se separa, com a mulher acompanhando Digão, e o homem, Rafael.
— Fechou, então, instrutores. Peguem suas canoas e levem seus alunos. E lembrem-se: segurança em primeiro lugar! — Digão apitou, já entrando na própria canoa com seu aluno.
Rafael seguiu logo atrás.
Yuri pegou o remo e caminhou com Emili em direção à canoa.
— Tá se sentindo melhor? — Yuri questionou, olhando para ela.
— Sim. O enjoo passou e já tomei um remédio para a dor de cabeça — ela confirmou, exibindo um sorriso radiante.
— Eu te avisei que aquelas cervejas todas não iam cair bem — Yuri brincou enquanto ajudava Emili a se acomodar na canoa, se sentando logo em seguida, de frente para ela.
Com os outros alunos, eles se afastaram da margem, deslizando em direção ao centro do lago.
— Ok, eu vou remar no início para te mostrar como se faz. Depois, você assume — explicou Yuri.
Ele começou a manejar o remo com movimentos firmes enquanto Emili observava tudo com atenção.
— Uau, eu não fazia ideia de que você sabia remar. Provavelmente porque não tinha como praticar lá no campus, né? — Ela riu da própria conclusão.
— Até agora, não. Mas, do jeito que aquela cidade alaga toda vez que chove, em breve eu posso até virar Uber de canoa.
Os dois riram da imagem mental.
— Foi o Rodrigo que te ensinou? — Emili continuou a questionar.
— Ah, não. Foi meu pai — ele respondeu. — Era ele quem fazia os passeios antes do Digão começar a trabalhar aqui.
— Pensei que fosse. Ele parece saber o que está fazendo — disse Emili, enquanto ela e Yuri observavam Digão dar instruções detalhadas a uma aluna.
— Ué, e eu não pareço? — Yuri rebateu em tom de brincadeira, arqueando uma sobrancelha.
Emili soltou uma gargalhada com a pergunta.
— Você também! Mas ele tem mais aquela aura de veterano. — ela se justificou. — E aquele outro, o Rafael? Ele trabalha aqui desde quando?
— Na verdade, ele não trabalha aqui — ele respondeu, estabilizando a canoa. — Pelo que entendi, ele começou como ajudante na escola de surfe do Digão, e ele o trouxe para ajudar aqui hoje também.
— Ah... isso explica.
Ouvindo aquilo, Yuri a encarou com um olhar curioso.
— Explica o quê? — Ele a questiona.
— O meu pressentimento ruim — ela responde, usando um tom que Yuri já conhecia muito bem.
Yuri deixou escapar uma risada sincera.
— Puts... o coitado caiu no sexto-sentido? — ele provocou.
— Fazer gracinha é fácil. Difícil é você apontar uma única vez em que eu estive errada, né? — Emili vangloriou-se, com um sorriso convencido.
Ela tinha razão. Desde que Yuri a conhecia, todas às vezes que ela tinha um pressentimento ruim sobre alguém, o tempo acabava provando que ela estava certa.
— Mas por que o Rafael? Você nem conhece o cara... pô, nem eu conheço o cara! — Yuri a questionou novamente enquanto passava o remo para ela.
— Não preciso conhecer! É um "pré"ssentimento, não um "pós"sentimento — ela retrucou.
— Sei... ou talvez seja só "pré"conceito mesmo. Sua chata! — Yuri a acusou, em tom de brincadeira.
Depois disso, Yuri passou as instruções de remada para Emili, explicando o passo a passo da técnica. Após darem mais algumas voltas pelo lago, ela assumiu o ritmo e começou a remar a canoa de volta para a margem.
— É isso. Já pegou o jeito — Yuri elogia Emili enquanto ela rema.
— Ugh... Você não pode remar na volta, não? Meus braços já estão doendo! — Emili reclama, ofegante.
— Posso, não. — Yuri responde, rindo dela. — Preciso ter certeza de que você consegue levar a canoa de volta pra margem sozinha.
Emili mostra a língua, fazendo careta, enquanto continua remando, com um mau-humor claramente fingido.
— Aff, achei que você não fosse levar essa de instrutor tão a sério — ela diz, bufando. — Deve ser só porque eu chamei o Rodrigo de veterano!
— Isso que dá ser preconceituosa — Yuri retruca com um sorriso orgulhoso. — Eu cresci aqui, lembra? Quando o Digão veio trabalhar aqui, eu já remava fazia três anos.
Emili só faz uma careta de lamento, sem fôlego nem argumento pra rebater.
— Então você vai voltar pra assumir como instrutor? — ela pergunta, já se aproximando da margem.
— Ah, não... — a resposta de Yuri começa confiante, mas vai perdendo força no final.
— Não? Pensei que fosse — ela comenta, surpresa. — Lembro de você ter falado algo sobre voltar pra cá depois da faculdade.
Ela não sabia da lista de sonhos que Yuri tinha abandonado. As conversas recentes com Ana haviam feito o próprio Yuri quase se esquecer disso.
Tudo o que Emili sabia era que ele se culpava pelo acidente do pai e que estava decidido a ajudar no resort para que algo assim nunca mais acontecesse. Mas ele nunca tinha contado o motivo mais profundo nem as condições por trás daquilo.
— E o que você vai fazer quando se formar? — Emili questiona, de forma bem inocente.
A resposta anterior de Yuri ainda ecoa na cabeça dele.
"Não? Eu não vou voltar?", ele se pergunta internamente. Afinal, aquela era a promessa que ele tinha feito a si mesmo.
Mas ele não precisa pensar muito para entender o que mudou. Foi o reencontro com Ana que colocou bateria nele para motivar essa resposta, mesmo que hesitante.
— Yuri? — Emili percebe o breve silêncio de Yuri.
— Hum? Ah... — Yuri volta ao presente. — Sei lá. Não decidi ainda. — Ele responde, dando de ombros e forçando um sorriso.
Mas, assim como o sorriso, sua resposta não foi de todo falsa.
Já na margem do lago, Yuri e Emili foram os últimos a chegar. Enquanto ele a ajuda a descer da canoa, Digão e Rafael passam caminhando por eles.
— "Não tem dessa. Se o cara não conseguiu entender, foi porque você não conseguiu explicar." Tanto Yuri quanto Emili ouvem Digão falando em um tom sério para Rafael.
Provavelmente, Rafael teve problemas tentando instruir o aluno. Percebendo isso, surpreso, Yuri olha imediatamente para Emili.
— Eu avisei. — Emili dá de ombros, se vangloriando novamente por sua intuição certeira.
Depois do passeio, Emili precisava voltar para o bangalô. Ela planejava revisar o roteiro da peça mais uma vez antes de seguir para o ensaio da tarde.
— Valeu pela aula professor. Boa sorte com o trabalho — Emili brincou enquanto já caminhava se afastando.
— Até mais. Boa sorte no ensaio.
Yuri acenou em despedida e seguiu na direção oposta, rumo à recepção depois de ter certeza que Digão não precisava mais dele por ali. Embora não estivesse de turno naquele dia, ainda precisava resolver algumas pendências na cidade: buscar o carro de serviço que estava na revisão e fazer compras para o estoque de bebidas do resort.
Ele caminhou por alguns minutos desde a saída do resort até a via de pedestres da ponte que ligava a área turística ao núcleo da cidade.
Com as mãos nos bolsos da bermuda, música tocando nos fones de ouvido e o cabelo balançando com a brisa marinha, Yuri olhava para o mar enquanto andava, observando o reflexo das enormes nuvens brancas no céu.
"Eu não quero voltar pro resort depois da faculdade..." — pensou. Já não era tão difícil admitir isso para si mesmo, depois das últimas conversas com Ana.
"...Mas eu não consigo voltar pros sonhos antigos."
O estômago embrulhou só de pensar nisso.
Uma lufada de vento mais forte ressecou seus olhos por um instante.
"Aquele dia, no jardim, a Ana me disse pra ter novos sonhos. E, sendo menos teimoso, admito que isso mexeu comigo de alguma forma" — ele levou uma das mãos ao rosto para se proteger do vento. — "Mas, depois de remoer os mesmos sonhos por tantos anos..."
Yuri soltou um suspiro profundo.
"Como eu posso explicar pra Ana que, mesmo antes de desistir, eu já não sabia como ter sonhos novos?"
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